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PERDEU-SE UMA CARREIRA. ALVÍSSARAS A QUEM A ENCONTRAR

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Artigo elaborado por Professor Doutor Álvaro Laborinho Lúcio

– O que queres ser quando fores grande?

Era assim que tudo começava. Pelo tempo fora iriam ficar esquecidos os bombeiros, as leiteiras, os trapezistas e tantas outras ilusões. Eu, por exemplo, queria ser «elpídio». Só mais tarde vim a saber que Elpídio era o nome do polícia municipal da minha terra. Então, desisti. Se não podia ser «elpídio», também não queria ser polícia. Entretanto, pelo caminho onde se perdiam bombeiros e similares, perdiam-se também os que, embora querendo, depressa se davam conta de que não podiam. Restavam, pois, os outros e, para esses, abriam-se então as carreiras como destino e os cursos como trajecto para a elas arribar. E lá vinham a Medicina, o Direito, as Letras, as Ciências, as Engenharias, a Farmácia. Assim se chegava a grande, com a administração pública em fundo, a abrir os braços aos que, sem serem tudo o que queriam, podiam ainda alimentar queres menores e, para satisfação destes, a esperança, ali, de uma carreira pública, como convinha a uma carreira. De fora ficavam os que não podiam querer. Sem carreira, restava-lhes a profissão.

Ora, a pergunta original é hoje bem diferente:

– Agora, que és grande, queres ainda ser o quê?

E no ser grande convergem já as condições indispensáveis para se buscar um destino desenhado ainda à beira de uma séria vontade de ser. Porém, aí, muitos estão já excluídos do primeiro desejo de ser e, alguns destes, perceberam que entre o ser e o ter-de-ser vieram intrometer-se o rigor do mérito e a sua avaliação, onde uma décima, uma única décima, definitiva, inexorável, pode atirá-los para fora do curso de ser, dando-lhes, como consolação, uma alternativa de ter-de-ser, ainda que não se saiba para ser o quê. De uma assentada, deita-se pela borda fora o tempo dos estudos e o seu valor insubstituível na formação integral dos jovens. Na fase da vida onde o mau e o bom, o pior e o melhor se misturam ainda e, por vezes, se confundem no último confronto antes do momento decisivo da escolha, exige-se-lhes que se neguem a si próprios, para serem já os melhores, e as estes para que sejam óptimos. Chama-se a isso sucesso. Como prémio, oferece-se-lhes uma carreira. As famílias e os vizinhos exclamarão, então:

– Já em criança, era o que dizia que queria ser quando fosse grande!

É claro que tudo isto não passa de ficção.

Mas, não vá o diabo tecê-las e venham aí tempos parecidos, o melhor será pensar.

E a primeira questão a colocar, antes de buscar uma resposta para oferecer aos jovens, terá de ser-lhes dirigida a eles:

– É este o sistema/modelo que querem, ou estão dispostos a lutar por outro? Acomodam-se a um regime que os torna precocemente responsáveis pelo modo como antecipam decisões definitivas sobre a sua vida? Aceitam, de barato, desistir dessa «inutilidade» que é «o tempo dos estudos», para se tornarem adultos antes de serem grandes? Não será, porventura, o regresso a esse «tempo dos estudos» que se impõe como paradigma para o debate, conferindo-lhe substância, exigência, e dimensão estratégica na aventura, também cultural, de ligar realidade e valores, progresso e consciência social, liberdade e solidariedade?

A resposta está nas suas mãos. Cada nova geração conhece agora uma designação diferente, tal como os furacões, as tempestades, os tufões e outras tragédias. Na confusão de Helenas, Millenialls, Zs ou Rosas, tudo segue arrastado pela força de um mesmo desígnio definido por um deus distante que tudo classifica e sobre tudo decide.

Se assim continuar. Desistentes, eles, da possibilidade de uma acção modificadora, como sugerir aos jovens que atiram para o futuro a sua capacidade real de virem a ser dos melhores a forma menos penosa de andarem sobre os seus caminhos das pedras? É claro que o que seria desejável era poder incentivá-los para uma escolha marcada sobretudo pelo gosto do que representa o curso que elegeriam e bem assim dos seus conteúdos e suas possíveis aplicações futuras. Seria ainda uma ideia de vocação a inspirar a escolha e a reforçar o gosto pelo trabalho a desenvolver ao longo do respectivo trajecto escolar.

Só que as carreiras, enquanto espaço de segurança e garantia de trabalho para uma vida, vão rareando e tendem mesmo a acabar no formato que vem do passado, seja pela natureza que se definiu para as coisas, seja até por vontade dos próprios. Das carreiras, e respectivas tarefas, que preenchiam os sonhos da alma e, assim, enchiam o gozo de viver, vai-se passando para profissões ou trabalhos que se limitam a satisfazer as necessidades primárias da vida, deixando de fora o tempo e o espaço onde se busca ainda encontrar o que sobeja daquele primitivo sonho de ser. O tempo perdeu muito da sua função estabilizadora. Dar tempo ao tempo deixou de ser uma opção estratégica. Tornado, hoje, instantâneo, o tempo adquire a dimensão do efémero, perde o sentido da sua própria historicidade e, atropelado pelo triunfo da eficácia como valor, perde a sua vocação de reserva de princípios de referência. Em grande parte, o presente invade o futuro e este passa a ser cada vez menos o que se projecta à distância, para ser aquilo que for sendo ou, num linguajar mais moderno, aquilo que está a dar.

Por isso, para além do estudo das matérias que hão-de sustentar as competências para a profissão que lhes calhou, quando calha, não poderão muitos dos jovens de hoje perder de vista a necessidade de uma formação constante e diversificada ao longo da vida. Do mesmo modo que, no tempo da formação académica original, independentemente da área que frequentem, não deverão descurar matérias como as Línguas, a Informática e o Digital em geral, além dos temas nucleares das chamadas Humanidades. Com as primeiras, adquire-se competências para se ser instrumento útil numa sociedade competitiva, assegurando-se, assim, mais fácil «empregabilidade»; com estes últimos, aporta-se conhecimento para se ser autónomo numa sociedade de competição, protegendo-se a dignidade humana e valorizando-se a personalidade. Esse, parece, pois, ser o caminho. Todas as dificuldades têm, também elas, uma dupla face, e hoje, neste mesmo tempo, é possível ver o Ensino Superior aberto a tantos que nem sequer imaginavam tê-lo no seu horizonte. Não há, por isso, que ser pessimista. Mas importa agir; perguntar, tendo também respostas próprias; reivindicar, assumindo propostas de solução; e ouvir, escutando de forma responsável e interrogativa aquilo que se escuta.

Aprender é aprender criticamente. A carreira, nas dúvidas que transporta, confunde-se hoje com a incerteza da vida. Tanto aquela como esta nascem, crescem e morrem na complexidade. Aprender é, pois, aprender a complexidade e saber viver nela e com ela. Há no conhecimento uma dimensão universal, quase ontológica, e outra funcional, indispensável nos tempos modernos. Quem se basta com esta, entrega-se às mãos de quem por si decide. Quem não prescinde daquela conservará sempre, ao menos, a ilusão de ser senhor de si e do seu tempo. E isso parece essencial. Para que quando se for grande se sinta ainda ter nas mãos o poder de ser maior!

Professor Doutor Álvaro Laborinho Lúcio

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